domingo, 30 de setembro de 2007

Nota de domingo

Brasil: corrupção endêmica

O historiador Rafael Simões, da Transparência Capixaba, analisou os números da Transparência Internacional e concluiu: a nota 3 do Brasil (a máxima é 10) entre os países menos corruptos revela corrupção endêmica, que afeta todos os setores da sociedade. Em treze anos de estudos do índice da TI, a nota do Brasil em 2007 é menor que a própria média, já baixa. Subiu no governo Lula, mas não atingiu os 4,0 de 2001 e 2002.
30/09/2007 0:00

Combate possível

Rafael Simões sugere criar um mapa da corrupção, identificando problemas e propondo soluções, integrando órgãos de combate à corrupção.

sábado, 29 de setembro de 2007

Staff da TV LULA (canal 51)

Por Reinaldo Azevedo:

Exijo Francenildo como ombudsman da Lula News

Pronto. Helena Chagas já anunciou a sua ida para o Lula News. Insisto: Franklin Martins, Tereza Cruvinel e Helena já estão juntos; falta agora contratar o caseiro Francenildo como ombudsman no novo canal. E o sem-emprego Mangabeira Unger para fazer um bico, estrela do programa Nossa Língua Portuguesa — as dúvidas, ele as tiraria com Lula. Paulo Henrique Amorim pode ser estrela da versão oficial de Zorra Total. José Genoino conduziria um café filosófico sob o tema “Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”. José Dirceu e Renan Calheiros, vestidos com aquela camiseta do Lobão (“Peidei, mas não fui eu”), dariam aulas de Educação Moral e Cívica.

Atentai bem, Ideli, atentai bem!

No Blog do Reinaldo Azevedo, comentando as manchetes da VEJA desta semana:

VEJA 3 – O caixa dois da turma de Ideli. E com grana de ONG...

O Senado vai instalar nesta semana a CPI das ONGs. Vocês sabem. O Brasil, criativo como é, criou as ONGGs: Organizações Não-Governamentais Governamentais. Nos últimos oito anos, elas levaram dos cofres públicos a fabulosa quantia de R$ 33 bilhões. Um caso chama a atenção e está sendo investigado pela Polícia Federal, segundo informam Ricardo Brito e Otávio Cabral. Vai um trechinho? Divirtam-se:“A Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul) recebeu 5 milhões de reais para promover cursos de treinamento profissional. Parte do dinheiro, já se sabe, foi parar na campanha política de um deputado do PT. Para justificarem os gastos, os dirigentes da federação falsificaram planilhas e criaram alunos-fantasma. O que mais chama atenção no caso, porém, é o eixo entre os principais envolvidos na fraude. Todos são correligionários, amigos ou assessores da senadora catarinense Ideli Salvatti, líder do PT no Senado.”

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Reforma tributária

Nas discussões relativas à reforma política brasileira, a reforma tributária trata-se de um tema fundamental, haja vista o modus operandi do Executivo nacional. Um debate que nao cite a temática corre o risco de ficar restrito a meras propostas de reformas eleitorais ou coisa que o valha, menos Reforma Política. Outra nevralgia também é o tal orçamento autorizativo, cedendo demasiada discricionaridade ao presidente de plantão e alimentando os mensalões da vida. Extraído da aba de economia do blog do Nassif, com formatação minha.

As três reformas tributárias

Há três propostas de reforma tributária em discussão no momento:

A primeira, a criação de um IVA (Imposto sobre Valor Agregado) dual, cobrado de uma vez, no destino, mas com uma alíquota destinada à União, e outra aos estados. É a base da proposta do Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bernardo Appy. Ainda não saiu do papel e sofre grande resistência dos estados.

Uma segunda proposta é a criação de um IVA federal e outro estadual, cada qual com uma estrutura de fiscalização própria. Essa posição é defendida pela maioria dos Secretários de Fazenda estaduais, reunidos no Confaz (Conselho de Política Fazendária). Apenas São Paulo e Sergipe ficaram contra a proposta, mas não contra a cobrança do imposto no destino (onde o produto é consumido). Segundo Mauro Ricardo, Secretário da Fazenda de São Paulo, a proposta paulista é a de aperfeiçoar o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços). São Paulo defende que se privilegie o destino (o imposto ficando com o estado consumidor), em vez da origem, com uma alíquota interestadual de 4%. Com essa alíquota, segundo Ricardo, a guerra fiscal será minimizada. Haverá legislação única nacional, evitando concessão de incentivos por lei estadual.

Outra proposta é desonerar investimento na aquisição de ativos. E ampliar a base de tributação do ICMS para setores em que não incide tributação municipal, como aluguéis. A idéia é manter o ISS com os municípios – na proposta de Appy, o ISS seria incorporado ao IVA. Pelas contas de Ricardo, São Paulo perde de um lado, mas ganha com o fim da guerra fiscal, que o tem obrigado a concessões variadas.
Mesmo assim, Ricardo acha que dificilmente a reforma tributária sairá. Não existe uma liderança forte no governo, nem entre os secretários de fazenda estaduais. A única coisa que une os secretários é ser contra o IVA dual. A tendência acabará sendo jogar o pepino para o Congresso descascar, e o projeto ficar mofando por lá até que apareça alguém disposto a ir até o fim.

São Paulo é contra o novo IVA por questões práticas. A criação de um novo tributo sempre dá ensejo a aumentos de tributação – o caso do Pis-Cofins é claro. Além disso, novos tributos estão expostos a questionamentos legais, que podem inviabilizar sua cobrança. Já o ICMS é um imposto de 40 anos, consolidado e que exige apenas aprimoramentos, segundo Ricardo.

Escândalos "cirúrgicos", e não republicanos.

Extraído do blog do Luis Nassif (aba de economia):

O mau uso do escândalo

Coluna Econômica - 14/09/2007

Escândalos, tragédias, catarses, costumam ter papel pedagógico. Criam momentos em que podem se romper a inércia, o imobilismo, e abrir caminho para soluções, aprimoramentos institucionais.
Mas no Brasil os escândalos tem sido reiteradamente desperdiçados. Surge um fato espetacular, há um tiroteio da mídia, muitas vezes abusando de ilações e de falsas acusações, que contribuem para desmoralizar as acusações pertinentes. E o objetivo final, qual é? Na maioria absoluta das vezes liquidar com a bola da vez. E só.
***
Tome-se o caso Renan Calheiros. Parte das acusações feitas a ele são de práticas comuns a grande parte de políticos e senadores. A questão das outorgas de concessões de rádios é uma delas. Muito provavelmente, se se for investigar quando recebeu o presente, se irá cair na gestão Pimenta da Veiga, ou mesmo Hélio Costa. O ex-Ministro das Comunicações Sérgio Motta considerava a despolitização do sistema de concessões um dos grandes desafios da democracia brasileira. Morreu, entrou Pimenta e as práticas continuaram.
Em vez de aproveitar a questão dos supostos “laranjas” de Renan, para uma cruzada em favor da moralização das concessões, a campanha de mídia visou apenas Renan. Lá em Maceió, mesmo, uma das concessões de televisão é do deputado Tomaz Nonô, do DEM. Mas nada se fala porque não interesse no momento.
Quando algum interesse for contrariado, quando as circunstâncias políticas exigirem, sacam-se os escândalos da algibeira e os colocam para provocar a indignação popular – e atender a propósitos nem sempre muito claros.

***

A questão de lobistas representando fornecedores ou concorrentes de licitação pública existe em quase todos os países. No Brasil, é exagerado. A questão é que, após tantos escândalos, há um mapeamento completo dos focos de vazamento dos recursos públicos. Existem as compras de remédios, de equipamentos de informáticas, os prestadores de serviços (vigilância, limpeza), que substituíram os empreiteiros como os grandes investidores em campanhas políticas.
Os nomes desses fornecedores são conhecidos. Tem a Confederal, no governo federal, do ex-Ministro de Lula Eunício Oliveira; tem a Tejofran em São Paulo, um quase monopólio no atendimento dos contratos públicos. Em cada estado existem as empresas que controlam esses contratos, que bancam campanhas políticas.
Se poderia aproveitar o escândalo para reduzir a margem de manobra desse pessoal, ou o subjetivismo nas contratações. Mas não interessa, porque o objetivo das campanhas midiáticas não é melhorar o país, mas mirar alvos específicos.

***

Grande parte da corrupção pública decorre do fisiologismo – de entregar cargos a aliados políticos para garantir a governabilidade. Nenhum governo escapa desse jogo. Apenas alguns são mais hábeis.
Se poderia aproveitar o escândalo para discutir o modelo político, a profissionalização das empresas públicas. Mas não interessa. O que vale é apenas o show da semana seguinte. A análise de problemas é complexa, exige estudo, suor e paciência. Mirar uma pessoa e atirar é simples, traz resultados mais imediatos.

É essa a tragédia brasileira.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sem comentários II.

No blog do Reinaldo Azevedo, acerca do debate com "a grife" Mano Brown:

Espetáculo grotesco na TV Cultura

Já participei muitas vezes do programa Roda Viva, como sabem. Escrever a respeito tem lá seus incômodos. Mas é do jogo. Alguns gostam da minhas intervenções; outros as detestam. Lá como cá, faço o que acho certo. Já tenho todos os amigos de que preciso. Se arrumar mais alguns, não reclamo. Mas não escrevo ou faço questões para ser simpático. Função de jornalista é incomodar, amolar o entrevistado. Ou tudo vira ação entre amigos. Nos tempos da ditadura, lembro do Canal Livre, de Roberto D’Avila, hoje com programa na Cultura. Como existiam “eles”, os ditadores, e “nós”, os que obedecíamos, havia certo sentido no clima de compadrio. A idéia era criar uma espécie de consenso do lado dos que se queriam “os democratas”. O jornalismo, é evidente, perdia muito, mas todos os absolutos eram relativos debaixo do regime. Fazer encontros, hoje em dia, que se confundam com convescotes é prestar um desserviço ao jornalismo e ao telespectador.

Foi, infelizmente, o que aconteceu com a entrevista do rapper Mano Brown ontem. O resultado era esperado. Dos convidados, o único que poderia navegar na contracorrente era meu amigo José Nêumanne, que, visivelmente, a partir de determinado ponto da entrevista, desistiu de perguntar — na verdade, desistiu de participar do programa. Era inútil. Os demais — Maria Rita Kehl, psicanalista; Paulo Lins, escritor, professor de literatura e roteirista de cinema; Renato Lombardi, jornalista da TV Cultura; Ricardo Franca Cruz, editor-chefe da revista Rolling Stone Brasil, e Paulo Lima, editor da revista Trip, estavam ali para incensar Mano Brown. O que se viu ontem é o exemplo do que se espera de uma TV pública? Tomara que não! William Bonner e Fátima Bernardes entrevistando os presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin no Jornal Nacional, para muitos milhões de telespectadores, na principal emissora privada do país, trataram os dois políticos com o desassombro que uma bancada formada pela TV pública não conseguiu ter com... um cantor.

Assistimos foi à renúncia do jornalismo — além, claro, de um desempenho especialmente patético: o de Maria Rita Kehl, de que falarei mais adiante. Estou dando muita importância a uma entrevista de um rapper? Não! Estou dando importância ao nosso dinheiro, leitor, que sustenta a Fundação Padre Anchieta. Uma das muitas diferenças entre a Globo e a Cultura é que a primeira não lhe custa nada; é de graça. A outra é financiada com a grana que sai dos impostos que os paulistas pagam. O conceito de TV pública vem sendo propagandeado por aí como a grande solução e a grande novidade do Brasil. É mesmo?

Surpresa

Eu nunca tinha ouvido Mano Brown falar — e também nunca o ouvi... é “cantar” que se diz? A julgar (vejam notas que publiquei ontem) pelo que dele falam os “playboys” e as “playgirls” do jornalismo, esperava, sei lá, um verdadeiro “pensador do holocausto urbano” brasileiro; um Jean-Paul Sartre da filosofia que chacoalha nos ônibus e nos trens; quem sabe um Jesus Cristo vestido de motoboy. Nada! Mano Brown é só um Macunaíma com cara marrenta, um espertalhão que diz barbaridades na certeza de que uma certa aura de mistério o protege. Era como se o povo ele-mesmo tivesse sido chamado a sentar naquela cadeira, com todas as suas cicatrizes e suas histórias de privações. Esse é o mito mais caro e mais vagabundo da esquerda: a suposição de que o humilde adquire uma voz, assume a força de uma representação, e continua ainda a ser o... humilde que serve de modelo aos devaneios do burguês culpado, que sonha com o “bom rústico”, variante urbana do bom selvagem de Roussseau, o tonto. Era o que expressava o olhar embevecido, “interpretante”, de Maria Rita Kehl, de quem, por Deus!, falarei ainda hoje.

Se um dia tiverem um tempinho, ou um tempão, leiam Fausto, de Goethe. Um dos sonhos daquele homem culto, cínico e culpado é compreender a verdade camponesa. E ele compreende que o fundo da alma de todo homem talvez não seja digno de ser visto de perto. Na obra, isso tem algumas implicações que seriam também religiosas. Nem cabe aqui. Vou adiante só com Mano Brown. E com a falência do jornalismo, ao menos na noite de ontem e naquela roda sonolenta, mais morta do que viva, pronta à adulação. Por alguma razão que gostaria que os valentes me explicassem, Brown era digno de dar uma entrevista, mas não podia ser confrontado – se é que alguém ali tinha vontade de confrontá-lo. Nêumanne, antes de desistir, até tentou.

Dou muita importância a Brown? Não! Quem dá é o Roda Viva. Foi anunciado pelo apresentador do programa e presidente da Fundação Padre Anchieta, Paulo Markun, como “a voz da periferia pobre de São Paulo” que “ faz da sua música um protesto contra o racismo, o crescimento urbano caótico e a dura vida nos bolsões de pobreza da cidade”. Também chamou a atenção para o ineditismo da coisa: “Numa rara aparição na TV, Mano Brown está hoje no centro do Roda Vida. Ele é líder e vocalista dos Racionais MCs, grupo de rap que surgiu há mais de 20 anos no Capão Redondo, região de Campo Limpo, uma das áreas mais populosas e pobres da Zona Sul de São Paulo” Markun seguiu adiante: “A música dos Racionais MCs deixa claro o conflito entre o centro e a periferia, entre o Brasil dos incluídos e dos excluídos. O grupo se transformou numa expressão das idéias sobre consciência negra no Brasil e fez dessa percepção sua marca no rap brasileiro”.

Em seguida, entrou uma narração em off com a trajetória de Brown — enfim, um homem bom: “(...) já interrompeu shows para conter brigas na platéia e para fazer discurso contra o álcool, após ver um jovem bêbado entre os espectadores. Avesso às tecnologias, não sabe mexer em computador e se considera uma pessoa rústica. O caráter durão, herdou da mãe, que deixou com 12 anos a Bahia, após brigar com o pai dela. Classifica o povo brasileiro como pacífico, mas já afirmou que pegaria em armas para fazer uma revolução. Mano Brown raramente concede uma entrevista e quase nunca faz shows fora da periferia. Já declarou que seu verdadeiro público está lá; foi quem o colocou no topo e precisa ouvir o que ele tem a dizer. Atualmente, atinge também a classe média, falando de drogas e marginalidade”.

Como se vê, não era um rapper que estava ali, mas um líder, um representante do “povo”. Faz quatro meses, esse rapaz esteve no centro de um grave conflito de milhares da pessoa com a polícia, na Virada Cultural de São Paulo. Um dos motivos óbvios da confusão, além de suas letras francamente hostis à polícia (definida por ele ontem como “o maior inimigo” dos pobres), foi o fato de ele ter-se atrasado nada menos de 90 minutos para o show. Ninguém lhe perguntou uma vírgula a respeito. Acima, como se vê na apresentação da personagem, não se disse uma miserável linha. O jornalismo dava um jeito de limar os aspectos menos virtuosos de sua biografia. Bento 16, sentado ali, não seria poupado.

A resposta à primeira pergunta de Markun já denunciava o gigante. O jornalista quis saber se, nesses 20 anos, a realidade da periferia melhorou ou piorou. Dialético, Mano Brown mandou ver: “Eu diria diferente, diferente. Se eu disser que melhorou, pode parecer assim... Melhorou um grão de areia dentro do que a gente vê que precisa ser melhorado. Então eu me recuso a dizer que melhorou, mas também eu não sou não sou cego de não perceber mudanças. Mudou. Mudar, mudou, entendeu? Agora..." Aí Markun se encarregou de completar a frase, colaborando com o entrevistado: “Bem menos do que poderia ter melhorado”. Não só Mano Brown não é confrontado, como se dá um jeito de melhorar o que ele diz.

Aí entrou Maria Rita Kehl, a psicanalista deslumbrada com o seu “bom selvagem” – ou seu “bom rústico”. Ela lhe pediu uma reflexão sobre o MTST (o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e o MST. O leitor pode se perguntar o que o rapper tem a ver com João Pedro Stedile. E daí? Kehl estava disposta a fabricar um revolucionário. Brown deixou claro que acompanhava de perto os movimentos do Capão Redondo. E só. Leiam trecho do diálogo:

Brown – As outras organizações, talvez eu acompanhe de longe.
Kehl – De longe, o que você acha do MST?
Brown – O que eu acompanho de longe é que tem um cara preso, certo? Lutando por uma causa que não é só dele, certo?, que é de milhões. Pelo que eu tou vendo, ele vai pagar sozinho, é isso?Kehl – Não sei, acho que não. Há muita gente presa.
Brown – Tão querendo botar o cara preso porque ele está lutando por uma causa que é de muitos. Eu acho que... É o José Rainha, é isso?
Kehl – Isso.
Brown – Eu tenho de dizer que eu sou um cara que leio pouco, né? Sou mal informado sobre muitas coisas. Mas as coisas que eu me interesso, eu me informo, entendeu?

O entrevistado, vá lá, tem o direito de dizer quanta besteira quiser. Foi convidado. Os jornalistas – e também dona Kehl, mesmo sendo psicanalista – é que têm de corrigir as bobagens. Pela ordem:

1 - José Rainha não está preso, minha senhora. Está solto. E promovendo invasões;
2 - É mentira! Não há “muita gente presa”. Não por causa de invasão de terra;
3 - Rainha é hoje um livre-atirador das invasões; foi suspenso pelo MST. Suas ações não são reconhecidas pelo movimento. É simplesmente vergonhoso que um programa jornalístico não se encarregue de fazer as devidas correções. Ora, não era por acaso. Vejam lá: Brown foi apresentado como um líder político. Só Nêumanne, além de Markun, poderia dizer ali a diferença entre a Constituição e o livro de receitas da Dona Benta.


Grande momentoO grande momento do programa veio na seqüência. Numa pergunta oportuna, Paulo Lima quis saber: “E o que está acontecendo em Brasília? É um negócio em que você presta atenção, essa movimentação toda, esses escândalos de corrupção, você se liga nisso, acompanha de perto?
Brown – Não de perto, mas acompanho.
Lima – O que você está achando, por exemplo, da forma como o presidente Lula tem se posicionado diante dessas confusões envolvendo o PT, dessa denúncias de corrupção envolvendo o PT, dessas denuncias de corrupção e tal? Eu vi uma entrevista sua aqui dizendo que, talvez, o Lula estivesse melhor fora daquela cadeira de presidente, que, na sua opinião, é a cadeia mais solitária do país. Queria que você falasse um pouquinho do Lula especificamente.
Brown – É, eu gosto do Lula, sou eleitor do Lula, apóio o Lula, falo bem do Lula em qualquer lugar e não espero benefício por isso. Não conto com benefício do Lula ou que venha do PT. Se vier, firmeza, mas eu não espero por isso. Eu acho que o Lula é um cara que veio de baixo, certo? ELE SABE QUE DAR A CABEÇA DOS AMIGOS DELE PARA OS INIMIGOS, ELE NÃO VAI DAR. ELE VAI ESPERAR A JUSTIÇA SE FAZER POR CONTA PRÓPRIA. ELE ESTÁ SE POSICIONANDO CERTO. ACHO QUE NÃO É DA ÍNDOLE DELE ENTREGAR UM AMIGO DELE QUE DEU MANCADA, ENTENDEU? Ele não faria isso. Ele sabe o que é que é isso. Ele não faria isso. Agora, ele vai deixar descobrir. Se descobrir, é pau no gato, é lamentável.
Na seqüência, o petista Paulo Lins tomou a palavra para lembrar que a corrupção está em todos os Poderes – não só no Executivo, claro, claro – e em todos os lugares, inclusive entre empresários, jogadores de futebol. E Lins queria saber (na verdade, já respondia) se é muito difícil falar a uma criança pobre que ela tem de ser honesta.
Brown – Eu chego a dizer que eu nem considero ele [o ladrão] desonesto. Diante da realidade e das armas que eles têm pra lutar, das armas que eles aprenderam como meio de sobrevivência, eles são honestos. EU TENHO CERTEZA DE QUE, COM OS PARCEIROS DELES, ELES SÃO HONESTOS; COM A FAMÍLIA DELES, ELES SÃO HONESTOS; COM OS MANO QUE TÁ PRESO, ELES SÃO HONESTOS, TÁ LIGADO? Eles são honestos com quem é honesto com eles. QUANDO VOCÊ FALA QUE UM ASSALTANTE DE BANCO É DESONESTO, VOCÊ TEM DE OLHAR PARA A SOCIEDADE... SE A NOSSA SOCIEDADE É HONESTA. EU COSTUMO FALAR PARA OS MANO, QUANDO A GENTE TÁ CONVERSANDO, QUE A NOSSA SOCIEDADE É CRIMINOSA, É OMISSA; ELA É CEGA QUANDO QUER, SURDA QUANDO QUER. Omissão é crime. Na categoria de criminosos, tá todo mundo na mesma, é igual.

Markun ensaiou uma contestação...ZINHA: “Mas a saída não seria lei pra todo mundo?” E Brown: “Mas a lei não é pra todo mundo. Nunca vai ser pra todo mundo.” Nêumanne ainda não tinha desistido e lembrou de uma coisa óbvia: a maioria do povo é honesta, trabalha. E acrescentou: “O herói brasileiro é o que trabalha (...), que levanta às 4h da manhã, que caminha a pé até o trabalho, lutando com a maior dificuldade para ser honesto". E Brown: “Parece letra de rap isso que você está falando. É utopia igual. Infelizmente, na realidade, a gente sabe que os heróis estão cada vez mais humilhados, sem direitos, sem escolas, sem hospital. Então os moleque passa a saber que ser herói não vale tanto a pena, entendeu? Herói que só apanha?”. Nêumanne lembrou: "Mas o cara também que vai para o crime, a vida dele é curta. Ele tem um lucro imediato, mas, a longo prazo, ele não tem um benefício assim tão grande, não é, Mano?" Mano não respondeu. Veio em seu socorro Paulo Lins – professor universitário, roteirista, “favelológo” que decidiu falar ex cathedra: “A periferia não é tudo igual; nem todo mundo é igual. Quando uma pessoa vai entrando para o crime, quando você olha, se você vive na favela, quando você vê a família, vê o aspecto, você já sabe quem vai entrar e quem não vai entrar. (...) Geralmente, quem vai para a criminalidade é aquele que está em pior situação."
E pronto. O próprio Mano Brown se preparou, à sua maneira, para um embate que não veio. Confessou isso. Ele era um verdadeiro encantador daqueles que chama “playboys” – e, mais do que tudo, da “playgirl” da noite: Maria Rita Kehl.
- Mano Brown acha que os criminosos são inocentes;
- Mano Brown acha que os inocentes são criminosos;- Mano Brown acha que Lula está certo em não entregar seus amigos;
- Mano Brown acha que bandido precisa é ser honesto com sua família e com seus amigos. O resto que se dane.
- Mano Brown está ocupando tempo numa TV pública para fazer a defesa de seus princípios civilizatórios;
- Mano Brown foi apresentado na TV pública como a voz dos oprimidos.
Ainda não estava contente. Para ele, o termo “traficante” está errado. O certo é “comerciante”. Ele não vê razão para prender o cara que vende cocaína e deixar solto o dono da Ambev – sim, ele afirmou isso com todas as letras. E ninguém disse nada. Questionou o que “fazia mais mal: um copo de 51 ou um cigarro de maconha”. E Paulo Lima não teve dúvidas: “um copo de 51”. Declarou, com a ajuda de Maria Rita Kehl, a polícia o maior inimigo do pobre. E, de novo, com ajuda da psicanalista e de Lins (parceiros no PT), lamentou a derrota de Marta Suplicy para Serra, definido como “aquele outro lá que não tá com nada”. Já sabemos que Brown gosta de Lula porque, afinal, ele não entrega os amigos. Está com tudo. Até aqui, estamos falando de um sujeito que faz a apologia descarada do crime. Mas ele também é um espertalhão.
Lombardi, outro jornalista presente, leu, quase comovido, o trecho de uma de suas letras. E quis saber o que ele significava. Sabem o que Brown respondeu? Que ele precisava rimar. Ou seja, não significava grande coisa. Paulo Lima perguntou sobre o tratamento dispensado às mulheres no rap (uma verdadeira escória) e sobre como era o seu relacionamento com a sua própria mulher, já que é um “caretão”, casado há muito tempo. “Minha mulher é uma coisa, e letra de rap é outra coisa”. Ah, bom... Putas são as mulheres dos outros. A dele, provavelmente, é honestíssima. Ele ainda teve tempo para defender o regime cubano; para dizer que negro é quem adota a “cultura” do negro (Existe uma? É o rap?), mesmo que, morando na periferia, seja branco”. Fiel a seu princípio de que a polícia é o principal inimigo, ainda refletiu: “Quem mora lá dentro e vira polícia não gosta daquilo”. Num dos posts, falei sobre a sua estranha gramática. Quando ele se esquecia da personagem, concordava sujeito e verbo e não devorava plurais. Quando se lembrava de ser Mano Brown, então baixava o homem rústico, que fazia Maria Rita Kehl sonhar.
Encerro
Foi um espetáculo grotesco. Menos por causa de Brown – afinal, o mais sensato da noite (já observei que Nêumanne desistiu de dar murro em ponta de faca) –, e mais por conta do jornalismo que se fez ali: deslumbrado, basbaque, adulador, contra qualquer noção de interesse público. Não! A polícia não é a principal inimiga do pobre – até porque composta também de homens pobres, que morrem aos montes. E alguém precisava contestá-lo. E não o fez. É uma vergonha que Lula (segundo Brown) não entregue seus amigos. E alguém precisava dizê-lo. E não o fez. É apologia da delinqüência chamar traficante de “comerciante”. E é uma obrigação moral afirmá-lo, mais ainda numa TV pública. E só se ouviu o silêncio. Se Brown, como ele próprio confessou, fala para “os mano” que a nossa sociedade é criminosa e considera que roubar não é crime – ele disse isso -, então está incitando a violência, fazendo a apologia do crime.Vendendo a quantidade de discos que vende, para os padrões brasileiros, este senhor já é um homem rico. E não há mal nenhum nisso, é claro. Mas fala como se a pobreza pudesse justificar todos os seus desatinos. Caso alguém fosse à TV defender o extermínio de bandidos sem julgamento, o Ministério Público, muito justificadamente, denunciaria o atrevido. Mas, com Brown, não vai acontecer nada. E ele está, na prática, defendendo a violência contra o homem comum. É o que fazem os bandidos. Eis o utopista apresentado com pompa por certa imprensa, encantada com seus dotes de verdadeira voz da periferia – uma periferia à qual ele próprio já disse não mais pertencer.
O que viu nesta segunda foi o conceito de público ou como aquilo que nao é de ninguém ou como aquilo que pertence à patota. No país governado pela burguesia do capital alheio, assistimos às lições de moral da delinqüência que põe em risco a vida alheia. E tudo pago com o dinheiro dos “playboys”. O Mano é Brown. E o jornalismo saiu com o nariz marrom.

domingo, 23 de setembro de 2007

Holding

No Blog do Noblat, pinçad da FSP:

Empreiteiras de obras da Universal financiam PRB

"O PRB (Partido Republicano Brasileiro), legenda do vice-presidente José Alencar e do ministro Mangabeira Unger (Planejamento de Longo Prazo), financiou-se quase que exclusivamente por meio de empreiteiras com grandes contratos com a Igreja Universal do Reino de Deus, em 2006.
O PRB foi organizado em 2005 como extensão política da Universal. Segundo a prestação de contas informada ao Tribunal Superior Eleitoral, R$ 1,51 milhão entraram nos cofres do partido vindo de oito empreiteiras contratadas pela Universal para fazer igrejas de porte médio e as chamadas "Catedrais da Fé", que podem abrigar até 8.000 pessoas sentadas.
As construtoras Liderança, MPC, Icec, Premo, Fujita, Precon, Efer e PBR doaram 94,3% de tudo que o partido recebeu no ano passado. Por conta dessa ajuda, o PRB, mesmo sendo um nanico com três deputados federais e um senador, foi um dos partidos que mais receberam doações privadas em 2006.
Os números são forte evidência de que a igreja fundada pelo bispo Edir Macedo vem usando o PRB para firmar-se na política. O próprio bispo, como pessoa física, doou R$ 10 mil.
A direção do PRB e as construtoras negam que haja algum canal privilegiado para doações entre partido e empresas. Mas um dos líderes da sigla, o senador e bispo licenciado da Universal Marcelo Crivella (RJ), diz que muitos dos doadores são "empresários evangélicos"." Assinante da Folha leia mais

domingo, 16 de setembro de 2007

Ensina pra gente, Mino (lambe saco) Carta

Comentário lido no Blog do Mino Carta (nao ponho o link desse lambe saco aqui)

enviado por: eduardo oliveira
Mino Carta, tenho 21 anos. Quando nasci, o presidente Lula já não era mais metalúrgico. Tenho certa dificuldade de visualizar o mesmo Lula que a imprensa chapa-branca. Antes de votar pela primeira vez, Lula já morava em uma cobertura que meu pai nunca sonhou em ter, e sua filha morava em Paris, cidade que ele nunca conheceu. Depois o filho de Lula revelou um mega-empresário. Como o sr. consegue ver um Lula que não é da elite? Ensina pra gente...

sábado, 15 de setembro de 2007

A "oposição".

No blog do Noblat, hoje:
Toma lá, dá cá

De Lauro Jardim na coluna "Radar" da VEJA deste fim de semana:
"O senador Edison Lobão (DEM/MA) votou a favor de Renan Calheiros, apesar de o seu partido ter fechado questão em torno da cassação. Beleza. Nos dias que antecederam a votação no Senado, Lobão recebeu uma notícia que amoleceu mais ainda seu coração com grossas artérias governistas: seu filho, Marcio, foi indicado pelo Banco do Brasil para presidir a Brasilcap, empresa de títulos de capitalização. Marcio, aliás, é sócio do pai em quatro emissoras de TV no Maranhão".

Essa é a Respública...


Sem intermediários

Antigamente, ao encerrar uma votação no plenário, o presidente da Câmara dos Deputados proclamava:- O item da pauta foi aprovado. A matéria agora vai ao Senado Federal [ou à sanção presidencial, dependendo do caso]. Após os últimos acontecimentos, o deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), que já sentou naquela cadeira, propõe novo texto para as circunstâncias:- O item foi aprovado. A matéria agora vai ao Supremo Tribunal Federal!

Freio na turma!!

No site do Claudio Humberto, hoje:

PRF faz da população refém
A Polícia Rodoviária Federal usou milhares de pessoas como reféns, ontem, em Brasília, a pretexto de protestar contra o governo. A "operação padrão" revistou quase todos os veículos no horário de pico. Os engarrafamentos gigantescos duraram horas. De nível médio, ganham salário inicial de R$ 5.900 e acham pouco. Casos de emergência médica não foram atendidos por culpa do caos. A direção da PRF não fala em punir os irresponsáveis.

Alô, PF
Há policiais rodoviários donos de guinchos mantidos próximos de postos da PRF. Claro, são os primeiros a chegar após qualquer acidente.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

A absolvição de Renan ou "Da hipocrisia e outros males brasileiros"!

Torcia pela condenação de Renan, mas não pelo conjunto da obra. Fosse por causa dela, teríamos de ter novas eleições! É que eu tinha a impressão que ele não seria um Roberto Jefferson, frouxo, fanfarrão... Eu cria que ele abriria o bocão! Mas ainda não foi dessa vez. E ele explica o porque: No título da nota acerca do assunto, Noblat afirma que "Renan intimidou senadores". Mas não vejo assim. Ele apenas apontou a hipocrisia da turma. Gosto sempre de citar uma das máximas do jornalista Lúcio Flávio Pinto, que diz que políticos quase sempre têm razão quando acusam, mas nunca quando se defendem. Enfim, vamos a Renan:

"- Senadora Heloísa Helena. A senhora sonegou o pagamento de impostos em Alagoas. Deve mais de R$ 1 milhão. Tenho um documento aqui que prova isso. E nem por isso eu o usei contra a senhora - disparou Renan Calheiros ao se defender da tribuna do Senado pouco antes de ser absolvido pela maioria dos seus pares.

- É mentira, mentira - gritou a presidente do PSOL sentada no meio do plenário. Pouco antes, ela subira à tribuna para atuar como advogada de acusação.

Renan não deu bola para a reação de Heloísa. Em seguida, virou-se para Jefferson Perez (PDT-AM) e comentou:

- Veja bem, senador Jefferson Perez. Eu poderia ter contratado a Mônica [Veloso, ex-amante dele] como funcionária do meu gabinete. Mas não o fiz.

Perez nada disse. Ouviu calado.

Então foi a vez do senador Pedro Simon (PMDB-RS). Renan disse olhando diretamente para ele:

- A Mônica Veloso tem uma produtora. Eu poderia ter contratado a produtora dela para fazer um filmete e pendurar a conta na Secretaria de Comunicação do Senado. Eu não fiz isso.

Simon ouviu calado.

Registre-se que o clima de intimidação dos senadores começou a ser criado logo no início da sessão quando discursou o senador Francisco Dornelles (PP-RJ). Ele foi o primeiro a falar.

Duas pérolas produzidas por Dornellles:

- Crime tributário não é causa para quebra de decoro.

- Amanhã, isso pode ser usado contra os senhores. Porque muitos aqui têm problemas fiscais.

Dornelles foi secretário da Receita Federal no governo de João Figueiredo, o último general-residente da ditadura de 1964. E depois foi ministro da Fazenda do governo José Sarney.

domingo, 2 de setembro de 2007

A fisgada!

No Blog do Noblat, há pouco:

"A única coisa que fiz foi servir ao Brasil", diz Dirceu

De José Dirceu, hoje, em São Paulo:
- O Brasil reconhece que estou sendo acusado, mas a única coisa que fiz, em toda a minha vida, foi servir ao Brasil e lutar pelos direitos do povo brasileiro.

A isca

Notinha postada ontem, no Blog do Reinaldo Azevedo, que disseca a estrutura do discurso petista:
O petismo não é um malufismo. É muito pior. Ou: do que é imoral e do que é amoral
O PT, além de carregar todos os males da esquerda — a começar da suposição de que seus partidários cometem crimes para o nosso bem —, associou-se a tudo o que havia de nefasto na chamada política tradicional, alçando o assalto aos cofres públicos a uma categoria de pensamento.
(...)
Vejam só: a cada vez que Paulo Maluf, para incredulidade de quase todos, nega as coisas que lhe atribuem, o sistema político se lembra de que tem de ser decente. Vale dizer: distingue-se o certo do errado. Por que ele nega? Porque ele sabe que a acusação que lhe fazem não é coisa bonita; ele não tem explicação pra ela, além do surrado: “é coisa dos meus adversários”. Ele não nos pede que o aceitemos com as suas, digamos, “particularidades”. Já com o PT é diferente. A síntese de seu discurso poderia ser esta: “Fizemos, sim; todo mundo faz, e vocês só estão nos acusando porque são preconceituosos”. Quando isso se dá, o mal se estabelece no coração do sistema.

A vez da vidraça.

No Estadão, hoje:

Culpa e responsabilidade
Fernando Henrique Cardoso

O editorial de O Estado de S. Paulo, na quinta-feira última, Nunca antes neste país, ressalta com razão que a decisão do STF mostrou caberem nos bancos dos réus um governo, um partido e um sistema político-eleitoral. A cortina de fumaça publicitário-eleitoral do disciplinado PT faz seus dirigentes dizerem em uníssono: não temos nada com isso, o julgamento não respinga em nós nem no governo, o mau comportamento é caso isolado, talvez de um só “companheiro”, o auto-imolado Delúbio, etc. São justificativas típicas de partidos autoritários: “o Partido”, em sua essência, é perfeito; os homens que o compõem são entidades à parte - podem ser pecadores, mas o partido não erra nunca.
Por extensão, o governo desse partido, que se imaginava de pureza platônica, nada teria que ver com os erros de seus filiados, menos ainda a figura simbólica que o expressa, Lula. Este olha os companheiros e subordinados com a benevolência distante do “paizão” condescendente, sem qualquer responsabilidade por suas diabruras. Se erraram, pagarão o preço. A tarefa de julgar pertence aos tribunais, não aos membros do agrupamento.

Enquanto o tribunal não dá seu veredicto, lavam-se as mãos e se têm por bons os que estão “supostamente” envolvidos em tramas. Pouco importam os veementes indícios que levaram os juízes do STF a receber as denúncias, tão pormenorizadamente descritas pela acusação e pela relatoria. Até o julgamento, “quadrilha”, peculato, corrupção ativa ou passiva são invencionices da mídia e da oposição. Se vierem a ser condenados, dirão: “Que outra coisa esperar de um tribunal, senão acomodar-se com a mídia e com a elite?”

O truque ideológico é simples como o sofisma no qual se baseia, o da separação entre um partido ideal, inatacável, e uma prática pervertida. É certo que a “culpa” será decidida pelo tribunal, bem como as penalidades. É até provável que alguns dos acusados sejam inocentados, em parte ou totalmente. Mas a responsabilidade pelo que ocorreu (cujo juízo é político, não penal) recairá sobre o governo, sobre seu chefe e sobre todos os que, ao não reprovarem com energia os deslizes, assumem uma atitude leniente que convida à repetição das malfeitorias.

Jamais avancei juízos sobre a culpabilidade de cada acusado, à espera das provas (já evidentes em alguns casos) e da decisão da Justiça. Faço a devida distinção entre culpa penal e responsabilidade política. Mas não poupei a responsabilidade do presidente, que nunca repudiou os fatos ocorridos, negando evidências, nem a dos dirigentes partidários que dizem: “Não é conosco.” Com quem é, então? Com o Delúbio e com o Valério, agindo sozinhos? A quem beneficiaram os apoios e os votos? Obviamente, ao presidente, a seus aliados e à sustentação das políticas do governo.

Por conseqüência, presidente e governo, indiretamente, e as pessoas diretamente implicadas na trama respondem pelo que ocorreu, embora em instâncias diversas e com graus de culpabilidade e de responsabilização também diversos. Todos estão, sim, no banco dos réus. Alguns são réus da Justiça, outros perante a opinião pública e a História. E de nada vale o outro sofisma, malufiano: “Fomos absolvidos pelo voto popular.” Terão muitos políticos de má catadura nesta companhia. O voto dá poder, mas não absolve nem perante a Justiça nem perante a opinião pública; se o processo de responsabilização tivesse sustentação política, nem sequer poder daria. Mesmo dando-o, fica o estigma de um poder manchado por práticas corruptas.
A hipótese de que os maiores responsáveis políticos nada sabiam é de difícil sustentação. Houve reiteração no STF da presença do candidato à Presidência e de seu vice na sala contígua ao lugar em que era feita a compra do apoio do PL aos candidatos do PT. O então governador de Goiás reafirmou que dissera ao presidente saber de subornos. Ainda que os dirigentes nada soubessem na ocasião, depois do que hoje se sabe caberia a repulsa dessas práticas malsãs. O PT até hoje calou. E o presidente Lula outra coisa não faz senão confundir a opinião pública, sem nunca dizer quem o traiu, e sem condenar moralmente seus aloprados companheiros. O presidente deve à Nação (mesmo à parte dela que o “absolveu” pelo voto) um repúdio claro às transgressões.
Por fim, o sistema político-eleitoral. A verdade é que o sistema de voto, proporcional e uninominal, fragmenta os partidos, quase os dissolve, obrigando o Executivo a uma série de acordos, popularmente chamados de barganhas. Esses acordos, não implicam necessariamente suborno, compra, mensalões ou coisa que o valha. Mas implicam a cessão do controle de partes da máquina pública a interesses partidários, o que em si pode não ser um erro, se for para a implementação de políticas com as quais o governo ou os partidos aliados estejam de fato comprometidos.

Quando, como no caso atual, não se sabe qual é o programa do governo e os aliados nunca estiveram próximos das idéias dos governantes e, ainda por cima, se introduz a prática - essa, sim, inédita e criada pelos operadores do PT - de oferecer vantagens pecuniárias para obter apoios no Congresso, configura-se a tal “quadrilha” ou “bando”. Não há, pois, como negar a relação entre o sistema político-eleitoral e os desatinos praticados.

Mudemos, pois, o sistema. É por isso que, embora consciente dos problemas que o voto distrital acarreta (mas há formas para solucioná-los), me venho batendo por sua adoção. Ele quebra o atual sistema, que precisa ser quebrado porque está desmoralizado. Se é certo que há algum tempo era perceptível o embaraço que nosso sistema político-eleitoral causa ao bom êxito da administração e às práticas políticas do País, isso se tornou patente no relacionamento entre o governo atual e o Congresso. O presidente Lula se declara favorável ao voto distrital misto. Por que, então, não assume sua responsabilidade política de o defender, em vez de deixar o PT propugnar por “listas fechadas”?

Presidente, fale com franqueza, assuma posições claras em favor de uma vida política mais decente. Não serão sofismas nem milhões de votos que o absolverão perante a opinião pública se permanecer num silêncio conivente.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República

sábado, 1 de setembro de 2007

Aparelho 4

No site do Claudio Humberto, hoje:

BB afasta diretor contra o '3'

O diretor de Marketing do Banco do Brasil, Paulo Caffarelli, única voz discordante da campanha do "3", foi "remanejado" para uma outra diretoria. A campanha do "3" insinua o envolvimento do BB na tentativa de alguns petistas de alterar a Constituição para possibilitar um terceiro mandato do presidente Lula. Caffarelli foi substituído por Jussara Silveira de Andrade Guedes, apadrinhada pela turma do deputado Geraldo Magela (PT-DF).